quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Infância

"...A criança chegando ao sete anos começa a ter o uso da razão, isto é, começa a distinguir o bem do mal, a fazer atos humanos e por isso mesmo, suas ações serão meritórias se forem boas, cometerá pecados se foram más. Porque aos sete anos com o uso da razão começa o LIVRE ARBÍTRIO, isto é a liberdade de agir de fazer o bem e o mal.

Se a mãe quer ser boa educadora, deve tê-lo presente e assim, aos sete anos há de tratá-los não como crianças mas como adultos. Esta é uma regra do bom educador: Incita, deixa agir, guia, corrige; educar quer dizer ensinar a fazer bom uso de suas faculdades. A criança, aos sete anos, começa a adquirir a razão e a liberdade, portanto a mãe deve ensinar-lhe como há de usar ambas. Isto entende-se dentro dos limites da capacidade da criança. Educar quer dizer ensinar a governar-se a si mesmo.

Pois bem a mãe não deve se contentar em dizer à criança vá rezar tuas orações! Deve procurar o modo de fazê-la compreender e inculcar-lhe que Deus é nosso Pai, que é o doador de tudo, que nos quer muito e que muito se alegra quando as crianças rezam bem suas orações. Para ela apresentar-lhe exemplos de crianças que rezam de boa vontade...

Educada deste modo, a mãe deverá louvar a criança quando expontaneamente ela fizer como lhe foi ensinado, fazendo- lhe ver que já é um adulto, que já sabe rezar sozinho e desta maneira, começa a criança a compreender que é coisa honrosa fazer o bem por conta própria.

Mas quando a criança não quer rezar? Então é conviniente que a mãe examine se escolheu o momento oportuno ou se não usou de palavras ásperas ou modos violentos...

Dos dez aos quatorze anos dá-se um desenvolvimento notável tanto no físico como no moral. Deve a mãe tê-lo em grande conta se quiser tirar proveito da educação dos filhos.

No que se refere à inteligência, nessa idade a criança compreende muito e até demais. Nessa idade seu coração começa a sentir o estímulo de muitas paixões. São propensos a ira e a vingança; são por vezes altivos, teimosos e obstinados; neles cresce o amor a independência.

Dois meios são muito importantes a oração e o repouso. Já que naturalmente nessa idade diminui o amor à oração e à frequência dos sacramentos, é preciso vencer essa repugnância do melhor modo possível. Quanto ao repouso é difícil ponderar-lhe a importância em ir-se logo para a cama e levantar-se cedo. Indo deitar-se logo evitam-se inúmeros perigos; levantando-se bem cedo obtém-se vantagens de ordem econômica, religiosa, higiênica e moral.

Padre Gaspardo Humberto - Maternidade Cristã - Ed Paulinas, 1947.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Procurava emprego, encontrou uma mãe. Autora: Elizabeth MacDonald

Quando Jeanne-Marie saiu do hospital, sentia-se só, abandonada e sem apoio. Como único patrimônio, restava-lhe no bolso uma moeda de um franco.

Nenhum ruído externo, porém, era capaz de arrancar de suas profundas reflexões uma moça de aspecto humilde e testa franzida, que caminhava com passo resoluto.

A jovem Jeanne-Marie, nascida num vilarejo da Bretanha, fora educada por seus pais no santo temor de Deus. Sua modesta condição a obrigara, quando ainda muito nova, a buscar emprego junto a uma rica família.

Desde a infância, tinha ela o piedoso costume de mandar celebrar todo mês uma Missa em sufrágio das almas do purgatório. Devendo abandonar sua vila natal para acompanhar seus patrões que se mudavam para a capital francesa, manteve-se fiel a esse ato de caridade, e assistia ela mesma ao Santo Sacrifício, durante o qual unia suas orações às do sacerdote, pedindo especialmente em favor daquela alma cuja libertação dependesse apenas de uma última prece.

Algum tempo depois de estabelecer- se em Paris, foi acometida por uma grave enfermidade que não só esgotou suas forças físicas, como lhe fez perder o emprego e consumiu todas as suas economias.

Quando, finalmente, saiu do hospital, sentia-se só, abandonada e sem apoio. Como único patrimônio, restava- lhe no bolso uma moeda de um franco. Possuía, entretanto, algo mais valioso que todo o ouro do mundo: a confiança em Deus e em Nossa Senhora.

Após uma fervorosa oração, dirigiu-se apressadamente a uma agência de emprego. Ao passar em frente à Igreja de Santo Eustáquio, algo a impeliu a entrar. O ambiente elevado, o som do órgão, a tênue luz que penetrava através dos vitrais, revestindo tudo de uma feeria de cores, encheram-na de paz e lhe fizeram esquecer por um momento sua dramática situação.

À vista de um sacerdote que se preparava para celebrar num dos altares laterais, lembrou-se de que naquele mês não havia mandado rezar a costumeira Missa pelas almas do purgatório.

Sempre lhe custara certo esforço reunir algumas moedas para a espórtula, mas hoje isto constituía um verdadeiro sacrifício… entregar o último franco que lhe restava equivalia a não ter mesmo com que saciar a fome naquele dia. A luta interior entre a devoção e a prudência humana foi de curta duração: logo venceu a primeira, pois Jeanne-Marie era pobre dos bens desta terra mas rica de amor de Deus.

Com a firme convicção de que Aquele que disse: “Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros” (Mt 6,26), não a desampararia, dirigiu- se à sacristia e, como a viúva pobre do Evangelho, entregou sua última moeda de um franco, solicitando que aquela Missa fosse celebrada na intenção de suas queridas almas do purgatório. Depois de assistir com muita devoção ao Santo Sacrifício, pôs-se novamente a caminho.

Sentia-se mais leve, não pelo vazio de seu bolso… mas porque, desprovida de todo recurso humano, abandonara- se exclusivamente ao beneplácito da Divina Providência. Seu coração, este sim, estava cheio. Cheio de uma nova confiança que sobrepujava certa ansiosa inquietude com relação ao futuro: qual seria seu destino? Caminhava mergulhada nesses pensamentos quando uma voz a interrompeu:

- Estás à procura de um emprego?

- Sim, senhor – respondeu, surpresa e com uma estranha sensação de estar em outro mundo…

- Pois bem, vai à Rua Tivoli nº 48 e fala com a Sra. Zélia. Ela está precisando de uma empregada e te receberá com bondade.

Não foi difícil achar a casa indicada. Chegou justamente no momento em que saía uma moça, resmungando, com um pacote embaixo do braço. Jeanne-Marie lhe perguntou se a dona da casa se encontrava.

- Talvez sim, talvez não! Não me interessa! Ela abrirá a porta se quiser. Não tenho mais nada a ver com isso! – respondeu ela sem se deter. Com mão temerosa, nossa pobre jovem tocou a sineta. Seu medo, porém, logo se dissipou ao ouvir uma voz doce chamando-a para entrar. Ao deparar-se com uma venerável senhora, de olhar bondoso, tomada de coragem, ela lhe expôs o motivo de sua visita:

- Soube que a senhora necessita de uma empregada e vim oferecer-me, pois me asseguraram que aqui seria recebida com bondade.

- Minha cara jovem, o que acabas de me dizer é extraordinário! Hoje pela manhã eu absolutamente não precisava de ninguém. Mas há cerca de uma hora tive de despedir uma insolente empregada, e ninguém no mundo, salvo ela e eu, sabe disso. Quem, pois, te envia?

- Foi um senhor ainda jovem que me parou na rua e me deu essa informação. E estou muito agradecida a Deus e a ele, pois necessito conseguir um emprego ainda hoje, já que não possuo mais um centavo sequer…

A distinta dama permanecia pensativa, não podendo compreender quem seria esse estranho personagem. Jeanne-Marie, erguendo casualmente os olhos, viu um quadro na parede e exclamou:

- É este o homem que me encaminhou para cá! Venho da parte dele!

Ao ouvir estas palavras, Da. Zélia soltou um grito e esteve a ponto de desmaiar. Pediu que a moça lhe contasse como fora o encontro com ele na rua. Ela narrou com simplicidade seu costume de socorrer as almas do purgatório, a Missa que mandara celebrar havia pouco e, por fim, o episódio do encontro com o jovem que se mostrava radiante de felicidade, logo ao sair da igreja. A nobre senhora ouviu tudo com atenção e, no final, disse emocionada:

- Não serás minha empregada, considero-te como filha! Este é meu filho… meu único filho, morto há dois anos, que deve a ti sua libertação das penas do purgatório. Em recompensa de tua generosidade, Deus lhe permitiu enviar-te aqui. Que Deus te abençoe! A partir de agora, rezaremos juntas por todos os que sofrem no lugar de purificação e dependem de uma prece para entrar na bem-aventurança eterna.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Formação do caráter dos dois aos seis anos.

"Também nesta idade o coração é capaz de receber uma educação especial. O pai que trabalha todo o dia para a criança e a mãe que desde cedo até a noite desvela-se por ela, é um poderoso argumento que certamente há de impressionar o terno coração do filho e o levará à gratidão.

Este é o tempo de se destruir o egoísmo. É bom que a criança se mostre de bom coração com seus amigos especialmente os mais pobres. Acostume-se em tempo que ela mesma dê esmola aos pobres, quando lhe baterem à porta. Desta maneira sentirá compaixão para com os infelizes e gratidão para com seus pais que lhe dão o necessário.

Nesta idade, também o sentimento religioso é capaz de educação. A criança prende-se muito ao que vê. É preciso que veja bons exemplos. As orações breves reza-se de boa vontade, de manhã e de noite; mas a criança há de ser convidada a rezá-las com bons modos, escolhendo-se o momento oportuno, não a despertando repentinamente, ou interrompendo à força seus brinquedos, ou ainda repreendendo-a; desta maneira não rezará de boa vontade e além disso, a oração tornar-se-á antipática, é preciso agir de modo que ela se torne agradável e desejada.

Passemos agora a mostrar alguns dos defeitos mais salientes da criança. Convém saber porque elas choram. As crianças choram com muita facilidade. Se o motivo é razoável. agir-se-á de acordo com o que o caso exige. Mas se choram simplesmente por capricho, porque se lhes nega o que pedem, então convém não se fazer caso da sua manhã, e deixá-la a si mesma, é o melhor modo para que se cale. A mãe que se apieda de seu choro, comete um grave erro pedagógico, porque a criança aprenderá a dominá-la, sempre por meio de suas lágrimas e acabará vencendo-a. Desta maneira nunca aprenderá a domar sua própria vontade contra a tirania de todos os seus caprichos.

Muitos filhos, se nunca levam a termo seus projetos pode lhes faltar a perseverança, devem aos seus pais essa desgraça e terão que repetir amargamente: Ah! se meus pais não me tivessem minado tanto!

Os pais devem andar de acordo na educação dos filhos. Se o pai, ao entrar em casa, encontra o filho chorando e nota que a mãe vai acariciar, deixe-o chorar, não se mostre compassivo. A criança vendo que o pai e mãe procedem do mesmo modo há de se calar mais facilmente. Se o marido ou a mulher se tivessem enganado, não devem corrigir ao outro na presença da criança. Um ou outro perderiam a autoridade, e a criança estaria do lado que lhe dá razão e sentiria menos afeto em seu coração por esse motivo, para com aquele que a contraria em todos os seus caprichos.
Se o marido notasse alguma coisa digna de recriminação em sua mulher, não derevá repreende-la diante de todos, mas quando se encontrarem sozinhos de todos.

No fazer a vontade das crianças e no corrigi-las os avós muitas vezes, para não dizermos sempre, impedem a ação educadora dos pias. Os avós tem muitas fraquezas para com os netinhos, mas para o bem deles, devem refrear esse carinho exterior e secundar a obra dos pais. E o mesmo se há de dizer das tias e dos demais membros da família..."

Padre Gaspardo Humberto - Maternidade Cristã - Ed Paulinas, 1947.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Professor enquanto autoridade

A palavra autoridade que aqui tanto é empregada não é usada para sistematizar uma atitude de violência ou de coagir o aluno sob ameaças. Antes de tudo, a palavra autoridade tem sua origem no verbo latino augere, que significa aumentar. Ele também está na origem da palavra autor (ou aumentador), estabelecendo uma relação que deve ser pensada: a autoridade é aquela que aumenta e, sobretudo, eleva. Sim, essa é a função do professor: elevar. E quem eleva necessita sempre fazer um grande esforço, maior até do que o de quem é elevado.

O professor enquanto educador é a autoridade, aquele que eleva. Isso se dá principalmente pelo ensino, mas também no trato com os alunos. Muitos pensam que abrindo mão de uma linguagem própria de um professor pode-se aproximar mais dos alunos. Porém, nem sempre o resultado é esse, como podemos perceber. A linguagem é mais um signo importante de autoridade, que providencia ao professor o devido estado que deve ter.

Não quero defender que o único meio de se comunicar seja a linguagem formal e plenamente erudita, mas ressaltar que ela não pode ser completamente descartada e posta para fora. Parte-se, muitas vezes, do princípio de que o professor, para melhor ser compreendido, deva falar a mesma linguagem do aluno. Para isso, muitos, infelizmente, se rebaixam a um nível até inferior, falando “palavrões” e outras baixarias, como expressões de duplo sentido. Contrário a isso, o ambiente da sala de aula deve ser um ambiente de autoridade, de elevação, do augere. Esse é o esforço que esteve sempre presente nos grandes educadores, o de elevar o aluno ao nível da linguagem do professor, gradualmente, e dentro das limitações de cada série.

O signo mais forte de autoridade do professor é o saber, o conhecimento que é transmitido. Na maioria dos casos, esse é um dos únicos signos de autoridade que permanece hoje em nossos mestres. A linguagem é o meio de mediação desse universo de aprendizagem. Quando o professor abre mão dela e despenca para um vocabulário esdrúxulo, ele já não cumpre com seu papel, não é autoridade e, dificilmente, vai conseguir manter a disciplina na sala de aula. O professor deve ser também referência moral, pois a linguagem dá margem para o entendimento de um código moral, de quais atos são aceitáveis naquele ambiente ou não. Desprovido desse precedente tão importante que é a linguagem, o que um professor pode transmitir aos seus alunos? Além do mais, enquanto educadores, sabemos muito bem que o caminho do saber não passa pela barbárie da grosseria e da falta de educação. Usando uma linguagem inadequada, a intermediação entre mestre e aluno se limita. Não há aquele despertar da curiosidade, tão comum na fase do aprendizado, para algo sadio e bom.

Assim como um agente de trânsito sem seu uniforme é apenas mais um no meio de tantos carros e, literalmente, “não apita nada”, o professor, ao abrir mão de uma vestimenta digna do seu estado, é para os alunos somente mais um entre eles. Quanto mais esse signo de autoridade é transgredido, o significado de que ali está presente um superior, que deve e merece respeito, não fica explícito o quanto deveria. Portanto, o educador que se veste como um aluno de quinze anos pouco vai conseguir, pois já se apresenta como quem tem pouco a oferecer.

Desse modo, podemos concluir que um professor que se apresente com a mesma linguagem, mesma roupa, quando não até pior, que os alunos, pouco ou quase nada poderá oferecer. Mesmo sendo um conceito feito previamente por fatores externos, não podemos deixar de considerar a importância de tais fatores. Obviamente, assim como o exemplo do guarda de trânsito, a conduta do mestre não se resume ao externo, mas esse muito tem a dizer e a impor. É bom lembrar que o foco na relação entre aluno e professor é o princípio de ordem, de respeito e de ensino na sala de aula e que uma coisa está claramente ligada à outra, de forma indissolúvel.

O modo como os alunos se vestem, por menos importante que possa parecer, deve ter seu lugar. O uso do uniforme serve para que o aluno entenda que existem ambientes sociais que exigem determinados comportamentos, deixando clara a ligação existente entre vestimentas adequadas e modos de agir coerentes com o meio. Saber como se portar também faz parte da formação do aluno como um todo. Afinal, não apenas nas escolas o vestuário reflete o comportamento. Não se entra em um fórum ou em uma igreja indevidamente vestido, por exemplo. Além disso, o uso do uniforme é essencial para que o aluno aprenda que, mesmo existindo direitos, existem deveres. Dessa maneira, para o bem do próprio aluno, os uniformes devem ser impostos e, por mais simples que seja, devido à condição social do aluno, o traje deve ser digno e modesto.

Outro fator que não é muito observado é a importância da pontualidade. A transgressão do horário, que muitas vezes se dá principalmente por parte do professor, parece ser vista pelo aluno como um princípio a ser seguido: se nem o professor cumpre os horários estabelecidos, os alunos cumprirão muito menos. E isso é entendido muito bem por eles, tanto nos dias em que o professor está presente na escola, como nos dias em que o mesmo está ausente.


Autor do artigo: Fernando Zanelatto Bodini

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A sala de aula enquanto espaço de ensino

Sabemos através da Antropologia que, em todas as culturas e civilizações, o homem se comunicava por meio de signos, não necessariamente escritos. Esses sinais carregam determinadas informações, das quais, desde muito cedo, aprendemos a abstrair seus conceitos.

Muito se discute sobre a indisciplina na sala de aula e a falta de respeito e de consideração existente ante a figura do professor. Porém, a influência dos sinais de autoridade nessa questão é pouco considerada. O seguinte exemplo demonstra claramente o que eu gostaria de chamar de fatores externos, que não são a única causa do problema, mas muito colaboram no que acontece em nível interno.

Tenhamos em mente o seguinte: um agente de trânsito de uma grande cidade tem a tarefa de controlar o tráfego em uma via de grande movimento. Suponhamos que tal agente se apresente nessa via desprovido de todos os seus distintivos e do seu uniforme. Sem até mesmo o seu apito e o posto elevado, que o facilita ser visto pelos veículos e pedestres. Para cumprir sua missão, o agente começa a gesticular e a falar alto, tentando organizar o intenso fluxo de veículos e de pedestres. Mas, desprovido de qualquer signo de autoridade, o guarda de trânsito é apenas mais uma pessoa entre as outras que passam. Por mais que ele tente se comunicar, ele se mantém incompreendido e, muitas vezes até, nem é notado. Através dessa cena, podemos nos transportar para a sala de aula, pois em muito a atitude dos alunos se aproxima à dos motoristas da via, que passam pelo agente sem respeitar ou obedecer às suas ordens.

O professor hoje parece que está totalmente desprovido dos seus signos de autoridade, sendo entendido como apenas mais um que gesticula e dá ordens. Poucos são os que, através de muito esforço, quando não por gritos e outras atitudes exaltadas, conseguem ter algum controle sobre a massa de alunos existente em uma sala de aula. Vendo um pouco as condições externas do meio de trabalho, em particular o espaço físico da sala de aula, que parece ter um papel tão secundário, gostaria de fazer uma análise mais aprofundada.

Constata-se que a sala de aula hoje é um espaço muito mal planejado quando se pensa no professor. A mesa daquele que deveria ocupar o centro e ser a base de toda a aula fica em um canto, como que escondido. O professor parece acanhado em um mundo do qual somente os alunos interessados se aproximam, driblando o resto da classe que está em um mundo à parte. Também, estar no mesmo nível que os alunos, além de ser um problema de visibilidade e, até mesmo, de acústica, pois a projeção da voz daquele que fala é dificultada, é um exemplo da falta de mais um signo de autoridade. O diálogo com o aluno, erroneamente, acaba se dando ao mesmo nível, em pé de igualdade.

Mesmo não sendo o espaço físico que define plenamente os problemas, este é mais um elemento que colabora para a situação. Esses sinais são abstraídos e entendidos, sem que haja a necessidade de maiores definições. É importante ressaltar que não me proponho a negar que deva existir um diálogo salutar entre professor e aluno. Apenas afirmo que esse diálogo jamais deverá se dar ao mesmo nível, pois o professor e mestre é o detentor do conhecimento e aquele que o deve transmitir, de forma compressível e caridosa, ao aluno.

Mesmo parecendo um detalhe, em muito o espaço físico colabora para a indisciplina e a falta de atenção dos alunos. Estes mal conseguem ver o professor e, muitas vezes, entendem que ele não só está no mesmo nível que o seu, mas em um inferior. Não significa que essa é uma questão de querer amedrontar o aluno ou criar nele algum complexo de inferioridade e de inibição diante do professor, mas colocar os pares dentro dos devidos e merecidos lugares, para que o aluno possa exercer seu papel e o professor, o dele.

Outro ponto é à disposição das carteiras na sala de aula. Comumente elas não estão fixadas ao chão, encontrando-se bagunçadas e desalinhadas, o que impossibilita a circulação do professor na sala ou sua percepção de qualquer ponto de desordem. Aplicando o princípio de que da ordem não se pode vir à ordem, é absolutamente impossível ter uma aula organizada e produtiva. Em um ambiente em que não se encontram bem alinhados e dispostos aqueles que vão para aprender, se a ordem fosse algo tão secundário como muitos querem afirmar, ela não seria um dos primeiros pressupostos para a identificação de uma civilização avançada.

Deixar os alunos irresponsavelmente livres para se movimentarem e disporem da sala tal como lhes parece ser agradável, é uma liberdade com a qual a condição deles não condiz. Tal circunstância seria o mesmo que fosse normal qualquer pessoa interferir no trânsito conforme sua vontade. O professor enquanto autoridade deve ser o ordenador e mantenedor da ordem, primeiramente ao nível físico e, depois, ao nível do saber. É fato que uma aula tem muito mais aproveitamento quando os alunos estão devidamente colocados em lugares fixos e prontos para começarem a aula, pois é próprio do homem que, para ordenar seus pensamentos, lhe é necessário um espaço que favoreça isso.

Outro ponto importante, mas que é ignorado é à entrada do professor na sala, primeiro que ele chega como sendo mais um em um momento em que geralmente os alunos estão agitados, o professor não é notado e não é destacado com dizeres de que “chega” começou a aula, não existe esse momento tão importante onde os alunos esperariam o professor como sendo também um momento de transição, do mundo da brincadeira e do recreio para o momento de estudo e da aula, a agitação continua tomando conta da sala, e o professor só é percebido por alguns no final da aula. Por isso é um remédio estabelecer um momento de silencio que conhecida, de preferência com a entrada do professor, para que principalmente a criança ou adolescente compreenda de forma clara que a aula não é recreio. E outras relações se iniciaram naquele momento diferente das mantidas com os demais alunos e colegas.

A sala de aula é o espaço de trabalho do professor. Ela não é a principal causa ou solução de todos os problemas, mas é sim fator importantíssimo, signo da autoridade, daquele que deverá ser obedecido e de quem vem o conhecimento a ser obtido pelos alunos que, na função de aprendizes, devem saber ter respeito e humildade. Porém, quando isso não lhes é imposto de forma simbólica, parece que há uma maior dificuldade de entendimento dessa relação. Em outros casos, as salas de aula dispostas em um estilo mais tradicional parecem ser o lugar adequado para haver um verdadeiro diálogo e aulas proveitosas para ambas as partes.

Não é por serem tradicionais que a aula deva ser transformada em algo medonho, em que se pressupõe incapacidade por parte do aluno. Apenas, como no exemplo do agente de trânsito acima citado, o professor, desprovido desses sinais de autoridade, dificilmente vai ser entendido e precisará explicitar esses conceitos por meio de broncas, gritos e atitudes descontroladas, o que acaba tumultuando ainda mais a aula. Esse é um assunto que podemos desenvolver ainda mais, mas que aqui me limito a apontá-lo de maneira geral, para uma maior reflexão, como havia proposto inicialmente.

Autor do artigo: Fernando Zanelatto Bodini

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Do nascimento aos seis anos

" Há meninos e meninas que tem um caráter tão bom que à primeira vista fazem-se amar. Modéstia, gentileza, benevolência e ao mesmo tempo grande circunspeção que tão lindamente se entrelaçam no seu coração e que manifestam ao exterior na doce expressão do seu olhar. Basta que se apresentem para serem logo preferidos. E por que?

Porque aquele conjunto de belas qualidades que lhe adornam a alma, agrada...e percebe-se que aquela pessoa lhe convém e que pode confiar nela.

...Que é que faz a índole da criança? A educação que recebe desde pequeno; é então que se modela o caráter ou o que chamamos, o natural de cada um.

Entendamos bem: o natural não é virtude. O natural age expontaneamente, sem esforço, e até sem reflexão. Ao passo que a virtude custa trabalho e geralmente é necessária a reflexão. Quem possui um natural bom, mesmo sem perceber faz o bem."

" Quem possui uma boa índole, está sempre tranquilo, porque possui a virtude da constância. Aquele que possui uma boa índole, gozará da simpatia de todos e se fará amar por todo o mundo. Ditosos os pais que se esforçam para formar em seus filho uma boa índole."

"Mas quando é que se forma esta índole?
Em grande parte na primeira idade, antes que a criança chegue ao uso da razão...
Ficamos admirados destas crianças quando as encontramos. Crianças tão educadas, de caráter amável, que se destacam entre cem. Pequenas como são, sabem ser generosas, benévolas, educadas...Que diferença, se as comparamos com outras tantas, que teimosas, caprichosas, rudes, mesmo sendo pequenas.
Por que acontece isso? Porque não receberam boa educação em família...

"Como se forma um bom natural? É preciso rodear o ambiente da criança de paz, de correção, de mútua benevolência, entre os membros da família, numa palavra, de bons exemplos. Quando numa família pai e mãe amam-se cordialmente, quando entre os irmãos e irmãs, reina a mais perfeita harmonia, quando se respeitam os velhos, quando não se fala mal de ninguém, quando com sincera caridade são socorridos os pobres, quando não se age com hipocrisia e principalmente quando na família reina o espírito religioso, ah! então a criança encontra terreno propício para, sem dificuldade adquirir um bom caráter.

Pe. Humberto Gaspardo-Maternidade Cristã ed paulinas 1947.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A virtude da caridade de uma futura mãe

"Uma família onde reina a paz é o paraiso. Mas a paz não pode existir sem caridade. Se se quizer saber qual a causa de tantas desavenças - que ordináriamente terminam em um dilúvio de impropérios e até de blasfêmias, e às vezes em cenas que transformam a vida conjugal e familiar, e atraem a atenção dos vizinhos - é evidente que será sempre a falta de caridade."

"Se aquela bentita mulher tivesse sabido refrear sua língua e dissimular, ou tivesse respondido com uma palavra menos áspera, o incêndio ter-se-ia apagado, e tudo teria terminado alí mesmo. Mas ao contrario, se ela quiser também dizer a sua, e da primeira seguem-se outras, chega-se ao extremo mencionado. A dureza do trato é geralmente a causa de certas antipatias que, arraigando-se no coração, convertem num verdadeiro inferno a vida conjugal."

"...sem a paz falta a boa harmonia, o amor à família, aos interesses da casa. E deste modo tudo vai mal a pior."

"O falar caritativamente, o agir com benevolência, o trato educado e correto não se aprende num momento maxime, porque mais facilmente observamos as faltas alheias e sempre estamos dispostos a aumentá-las e ao contrário, as nossas não as vemos ou se as vemos as diminuímus e desculpamos..."

"Finalmente o ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO. Se a uma mãe falta o espírito de sacrifício falta-lhe a virtude fundamental no seu estado. Por que afinal de contas, nega uma mãe a vida a quem tem o direito de tê-la? Porque não tem espírito de sacrifício. Por que naquela casa nunca há ordem, a roupa esta suja, os filhos mal cuidados, a casa enxovalhada? Porque falta na mãe o spírito de sacrifício. Por que os filhos não rezam as orações do bom cristão e aproveitam tão pouco da escola, e não vão ao catecismo? Porque a mãe não se quer incomodar. Poderiam viver mais folgadamente, evitar gastos inúteis, se a mãe tivesse um pouco mais de espiríto de abnegação."

"Ditosas as mães que inculcam às suas filhas este espírito com exemplo e com as palavras. Este é o melhor dote que lhes possam legar."

Pe. Humberto Gaspardo - Maternidade Cristã, ed Paulinas - 1947.